USO DA VÍRGULA
A vírgula serve para marcar as separações de sentido entre termos vizinhos, as inversões e as intercalações, quer na oração, quer no período, ou seja: separa termos dentro da oração ou orações dentro do período.
O uso da vírgula é mais uma questão de estilo, pois vai ao encontro da intenção do autor da frase.
A seguir, indicam se alguns casos principais de emprego da vírgula:
a) para separar o aposto explicativo:
- João, meu vizinho, bateu com o carro.
- Todos gostamos de arroz e feijão, alimentos indispensáveis na mesa do brasileiro.
b) para separar o vocativo:
- Mãe, eu estou com fome.
- “Dizei-me Vós, Senhor Deus, se eu deliro ou se é verdade tanto horror perante os céus.” (Castro Alves)
c) para separar os termos de mesma função:
- Comprei arroz, feijão, carne, alface e chuchu.
- Machado de Assis, Castro Alves e Rui Barbosa são escritores brasileiros.
d) para assinalar a inversão dos adjuntos adverbiais (facultativa):
- Na semana passada, o diretor conversou comigo.
- Aos treze dias do mês de julho de mil novecentos e sessenta e seis, nascia Childerico.
e) para marcar a supressão de um verbo:
- Uma flor, essa menina!
- Que terrível, a espera por José...
f) a vírgula também é empregada para indicar a ocultação de verbo já escrito anteriormente (zeugma) ou outro termo (elipse):
- O decreto regulamenta os casos gerais; a portaria, os particulares. — a vírgula indica o zeugma do verbo regulamenta.
- Às vezes procura assistência; outras, toma a iniciativa. — a vírgula indica a elipse da palavra vezes.
g) para separar o nome do lugar, nas datas:
- São Paulo, 21 de novembro de 2004.
- Alvorada do Sul, 13 de julho de 1965.
h) nos complementos verbais deslocados para o começo da frase, repetidos por pronome enfático:
- A rosa, entreguei-a para a menina.
- A mim, nada mais me resta!
i) para isolar expressões explicativas, corretivas, continuativas, conclusivas, tais como: por exemplo, além disso, isto é, a saber, aliás, digo, minto, ou melhor, ou antes, outrossim, demais, então, com efeito etc.
- A menina, aliás, estava linda!
- Não se deve, por exemplo, colocar vírgula entre sujeito e verbo.
- Todos querem o melhor, isto é, as coisas boas da vida.
j) para isolar orações ou termos intercalados (aqui se usam também, no lugar das vírgulas, travessões ou parênteses):
- A casa, disse Asdrúbal, precisa de reforma.
- A casa — disse Asdrúbal — precisa de reforma.
- A casa (disse Asdrúbal) precisa de reforma.
- Atanagildetina, ontem, estava linda.
- Atanagildetina — ontem — estava linda.
- Atanagildetina (ontem) estava linda.
k) para separar orações paralelas justapostas, isto é, não ligadas por conjunção:
- Chegou a Brasília, visitou o Ministério das Relações Exteriores, levou seus documentos ao Palácio do Buriti, voltou ao Ministério e marcou a entrevista.
- Abriu a geladeira, pegou a garrafa d’água, encheu um copo até a borda e deixou-o cheio sobre a mesa.
l) para separar as orações coordenadas assindéticas:
- Maria foi à feira, José foi ao mercado, Pedro preparou o almoço.
- Radegondes estudava Português, Childerico jogava cartas, Asdrúbal lia história em quadrinho.
m) para separar as orações coordenadas ligadas por conjunções:
- Maria foi ao mercado, mas não comprou leite.
- Os meninos estavam no pátio, pois não havia aula naquele momento.
- Pascoalina estuda bastante, logo terá um bom desempenho na prova.
Curiosidade: As orações coordenadas sindéticas aditivas, ainda que sejam iniciadas pela conjunção e, podem ser separadas por vírgula quando proferidas com pausa:
- Radegondes não trouxe o livro que prometera, e eu fiquei triste por isso.
- Todos olhavam para o menino que gritava, e não entendiam a razão daquele escarcéu!
n) para separar as conjunções coordenativas intercaladas ou pospostas ao verbo da oração a que pertencem:
- Dedicava-se ao trabalho com afinco; não obtinha, contudo, resultados.
- O ano foi difícil; não me queixo, porém.
- Era mister, pois, levar o projeto às últimas consequências.
- Todos queriam macarrão; Âni desejava, porém, arroz.
o) para separar as orações subordinadas adjetivas explicativas:
- O homem, que pensa, é um ser racional.
- Roberto Carlos, que foi eleito “rei” em nosso país, foi homenageado no carnaval carioca.
Curiosidade: Os orações subordinadas adjetivas restritivas podem ter uma vírgula no fim, sobretudo quando forem longas. Essa pontuação é correta, mesmo que separe o sujeito expandido do seu verbo.
- O homem que carrega nos braços o seu filho adormecido, é o Asdrúbal.
- O autor do livro que virou um conhecido filme estrelado por um famoso ator brasileiro, morreu ontem.
p) para separar as orações subordinadas adverbiais, principalmente quando antepostas à principal:
- Ela fazia a lição, enquanto a mãe costurava.
- A menina ficará muito feliz, se você lhe der aquela boneca.
- Enquanto a mãe costurava, Pascoalina fazia a lição.
- Quando todos se recolheram aos seus aposentos, a dona da pensão pode relaxar um pouco.
q) para separar as orações reduzidas:
- Somente casando com Asdrúbal, você será feliz.
- Ao sair, apague a luz.
- Terminada a missa, todos foram para as suas casas.
PONTO E VÍRGULA
O ponto e vírgula, em princípio, separa estruturas coordenadas já portadoras de vírgulas internas. É também usado em lugar da vírgula para dar ênfase ao que se quer dizer.
Exemplos:
- Sem virtude, perece a democracia; o que mantém o governo despótico é o medo.
- A borboleta voava; os pássaros cantavam; a vida seguia tranquila.
- Em 1908, vovô nasceu; em 1950, nasceu papai.
- As leis, em qualquer caso, não podem ser infringidas; mesmo em caso de dúvida, portanto, elas devem ser respeitadas.
- Art. 15. É vedada a cassação de direitos políticos, cuja perda ou suspensão só se dará nos casos de:
I — cancelamento da naturalização por sentença transitada em julgado;
II — incapacidade civil absoluta;
III — condenação criminal transitada em julgado, enquanto durarem seus efeitos;
IV — recusa de cumprir obrigação a todos imposta ou prestação alternativa, nos termos do art. 5º, VIII;
V — improbidade administrativa, nos termos do art. 37, § 4º.
DOIS PONTOS
Emprega-se este sinal de pontuação:
a) antes de uma citação:
- Rui Barbosa afirmou: “Esta minha a que chamam prolixidade, bem fora estaria de merecer os desprezilhos que nesse vocábulo me torcem o nariz.”
- Quem foi que disse: “Há mais coisas entre o céu e a terra do que supõe nossa vã filosofia.”?
b) para indicar enumeração:
- Fui à feira e comprei: uva, maçã, melancia, jaca.
- Gosto de todo tipo de arte: música, cinema, teatro.
c) antes de aposto discriminativo:
- A sala possuía belos móveis: sofá de couro, mesa de mogno, abajures de pergaminho, cadeiras de veludo.
- Ela gostava de cores fortes: vermelho, laranja, marrom.
d) antes de explicação ou esclarecimento:
- Todos os seres são belos: um inseto é belo, um elefante é belo.
- Só quero uma coisa na vida: ser feliz!
e) depois de verbo dicendi (dizer, perguntar, responder, falar etc.):
- Maria disse: — A língua portuguesa é muito fácil!
- A rapaz, asperamente, retrucou: — Não fui eu!
PONTOFINAL
Usa-se:
a) no final do período, indicando que o sentido está completo:
- A menina comeu a maçã.
- A terra é azul.
- Ela sempre espera que eu traga as maçãs caramelizadas de que tanto gosta.
b) nas abreviaturas: Dr.; Sr.; pág.
PONTO DE INTERROGAÇÃO
O ponto de interrogação, como se depreende de seu nome, é utilizado para marcar o final de uma frase interrogativa direta:
- Até quando aguardaremos uma solução para o caso?
- Qual será o sucessor do Secretário?
Curiosidade: Não cabe ponto de interrogação em estruturas interrogativas indiretas, nem em títulos interrogativos
- Quero saber onde a senhorita esteve até esta hora.
- O que é linguagem oficial
- Por que a inflação não baixa
- Como vencer a crise
PONTO DE EXCLAMAÇÃO
O ponto de exclamação é utilizado:
a) depois de qualquer palavra ou frase, na qual se indique espanto, surpresa, entusiasmo, susto, cólera, piedade, súplica:
- Tenha pena de mim!
- Coitado sou eu!
- Ai!
- Nossa!
b) nas interjeições:
- Ah!
- Vixe!
- Puxa!
c) nos vocativos intensivos:
- Senhor Deus dos desgraçados! Protegei-me.
- Colombo! Veja isso...
RETICÊNCIAS
Usam-se:
a) para indicar supressão de um trecho nas citações:
- “... a generosidade de quem no-la doou.” (Rui Barbosa)
- “Saí, afastando-me dos grupos...” (Machado de Assis)
b) para indicar interrupção da frase:
- Ela estava... Não, não posso dizer isso.
- A vida... Sei lá... Não sei o que dizer sobre a vida.
c) para indicar hesitação:
- Acho que eram... 12h... não sei ao certo, disse Jocasta.
- Quero uns dez... ou doze pães.
d) para deixar algo subentendido no final da frase:
- Deixa o seu coração dizer a verdade...
- Ela sabe que eu quero...
PARÊNTESES
Os parênteses são empregados nas orações ou expressões intercaladas.
- O Estado de Direito (Constituição Federal, art. 1º) define-se pela submissão de todas as relações ao Direito.
Curiosidade: Quando a frase inteira se encontra dentro dos parênteses, o ponto final vem antes do último parêntese:
- O decreto regulamenta os casos gerais; a portaria, os particulares. (Nesta frase, a vírgula indica o zeugma do verbo regulamenta.)
TRAVESSÃO
O travessão é empregado nos seguintes casos:
a) substitui parênteses, vírgulas, dois pontos:
- O controle inflacionário — meta prioritária do Governo — será ainda mais rigoroso.
- As restrições ao livre mercado — especialmente o de produtos tecnologicamente avançados — podem ser muito prejudiciais para a sociedade.
b) indica a introdução de enunciados no diálogo:
- Indagado pela comissão de inquérito sobre a procedência de suas declarações, o funcionário respondeu: — Nada tenho a declarar a esse respeito.
c) indica a substituição de um termo, para evitar repetições:
O verbo fazer — vide sintaxe do verbo —, no sentido de tempo transcorrido, utilizado sempre na 3.ª pessoa do singular: Faz dois anos que isso aconteceu.
d) dá ênfase a determinada palavra ou pensamento que segue:
- Não há outro meio de resolver o problema — promova-se o funcionário.
- Ele reiterou suas ideias e convicções — energicamente.
ASPAS
As aspas têm os seguintes empregos:
a) usam-se antes e depois de uma citação textual:
- A Constituição da República Federativa do Brasil, de 1988, no parágrafo único de seu art. 1º, afirma: “Todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente”.
b) dão destaque a nomes de publicações, obras de arte, intitulativos, apelidos etc.:
- O artigo sobre o processo de desregulamentação foi publicado no “Jornal do Brasil”.
- A Secretaria da Cultura está organizando uma apresentação das “Bachianas”, de Villa Lobos.
c) destacam termos estrangeiros:
- O processo da “détente” teve início com a Crise dos Mísseis em Cuba, em 1962.
- “Mutatis mutandis”, o novo projeto é idêntico ao anteriormente apresentado.
d) nas citações de textos legais, as alíneas devem estar entre aspas:
- O tema é tratado na alínea “a” do art. 146 da Constituição.
Fonte: MARTINO, Agnaldo. Português esquematizado: gramática, interpretação de texto, redação oficial, redação discursiva. São Paulo: Saraiva, 2012.